Nasce o Livro Livre: Um Ponto de Resistência Anarquista no Sul do Espírito Santo

A cidade de Cachoeiro de Itapemirim, berço de uma cultura muitas vezes aprisionada pelas elites, ganha um sopro de liberdade e resistência. A União Anarquista Federalista (UAF), em parceria com a Federação Anarquista Capixaba (FACA), lança o projeto Livro Livre: um ponto físico de troca de livros baseado no mais puro princípio do apoio mútuo. Aqui, não há moeda, não há patrão, não há catraca. Deixe um livro, leve outro. É um ato simples, mas profundamente subversivo em um mundo que tenta mercantilizar cada aspecto de nossas vidas e conhecimentos.

Este espaço é mais do que uma estante; é um marco territorial da cultura libertária na cidade. É um convite para que a classe trabalhadora, os estudantes, os artistas e todos os inconformados ocupem esse pedaço da cidade com ideias que o sistema quer ver esquecidas. Ao colocar em circulação livros sobre anarquismo, anticapitalismo, feminismo, ecologia social e história vista de baixo, estamos construindo as trincheiras ideológicas da nossa luta. Cada livro retirado é uma semente plantada; cada livro doado é um tijolo no muro da resistência popular.

Funciona pela solidariedade e pela confiança, valores que o capitalismo tenta destruir diariamente. Se você tem livros pegando poeira em casa, traga-os para ganharem vida nova nas mãos de outros combatentes. Se você busca conhecimento para entender o mundo e transformá-lo, venha buscar. Não se trata de caridade, mas de responsabilidade coletiva com a formação da nossa classe. O projeto Livro Livre vive pela comunidade e para a comunidade, sendo um exercício prático de autogestão e horizontalidade, mostrando que podemos organizar nossa cultura e nossa educação sem esperar permissão do Estado ou dos empresários.

Por isso, conclamamos todos os moradores de Cachoeiro e região: venham conhecer, participem, doem, levem, divulguem. Apoiem essa iniciativa que aquece nossos corações e mentes para a batalha das ideias. O futuro que queremos construir, sem exploração e sem opressão, passa também por gestos como esse. O Livro Livre é nosso, é de quem o fizer. Ocupe a cultura, liberte-se! Viva a UAF! Viva a FACA! Pelo apoio mútuo e pela revolução social!

União Anarquista Federalista – https://uafbr.noblogs.org/

Federação Anarquista Capixaba – https://federacaocapixaba.noblogs.org/

English version:

The “Free Book” is Born: A Point of Anarchist Resistance in the South of Espírito Santo, Brazil.

The city of Cachoeiro de Itapemirim, birthplace of a culture often imprisoned by the elites, gains a breath of freedom and resistance. The Anarchist Federalist Union (UAF), in partnership with the Capixaba Anarchist Federation (FACA), launches the Free Book project: a physical book exchange point based on the purest principle of mutual aid. Here, there is no currency, no boss, no turnstile. Leave a book, take another. It is a simple act, but profoundly subversive in a world that tries to commodify every aspect of our lives and knowledge.

This space is more than a bookshelf; it is a territorial landmark of libertarian culture in the city. It is an invitation for the working class, students, artists, and all nonconformists to occupy this piece of the city with ideas that the system wants to see forgotten. By circulating books on anarchism, anti-capitalism, feminism, social ecology, and history from below, we are building the ideological trenches of our struggle. Each book taken is a seed planted; each book donated is a brick in the wall of popular resistance.

It operates on solidarity and trust, values that capitalism tries to destroy daily. If you have books gathering dust at home, bring them so they can gain new life in the hands of other fighters. If you seek knowledge to understand the world and transform it, come and get them. This is not about charity, but about collective responsibility for the education of our class. The Free Book project lives by the community and for the community, being a practical exercise in self-management and horizontality, showing that we can organize our culture and our education without waiting for permission from the State or businessmen.

Therefore, we call upon all residents of Cachoeiro and the region: come and see, participate, donate, take, spread the word. Support this initiative that warms our hearts and minds for the battle of ideas. The future we want to build, without exploitation and without oppression, also involves gestures like this. The Free Book is ours, it belongs to those who make it happen. Occupy culture, free yourself! Long live the UAF! Long live the FACA! For mutual aid and social revolution!

União Anarquista Federalista – https://uafbr.noblogs.org/

Federação Anarquista Capixaba – https://federacaocapixaba.noblogs.org/

Anarquistas “Eleitores”*

Por Errico Malatesta

Como não há e não pode ser uma lei ou autoridade que dê ou tire o direito de ser chamado de anarquista, somos verdadeiramente forçados, de tempos em tempos, a apontar a aparência de algum convertido ao parlamentarismo que continua, pelo menos por um certo tempo, declarando-se anarquista.

Não encontramos nada de ruim ou desonroso em mudar nossa mente, quando a mudança é motivada por convicções novas e sinceras e não por interesse pessoal; Gostaríamos, no entanto, de dizer com franqueza o que se tornou e o que deixou de ser, para evitar argumentos inúteis. Mas talvez isso não seja possível, porque quem muda suas ideias não sabe em geral, no começo, onde pousará. De resto, o que nos sucede acontece, em grande proporção, em todos os movimentos políticos e sociais. Os socialistas, por exemplo, tiveram que sofrer os exploradores do socialismo e os políticos de todos os tipos que se chamavam socialistas; e os republicanos hoje são igualmente obrigados a suportar que alguns, vendidos ao partido dominante, usurpam até mesmo o nome de mazzinianos.

Felizmente, o mal-entendido não pode durar muito tempo. Logo, a lógica das ideias e a necessidade de ação forçam os chamados anarquistas a renunciar espontaneamente a seu nome e tomar seu lugar de direito. Os anarquistas eleitorais, que em várias ocasiões se mostraram, todos eles, mais ou menos rapidamente, abandonaram o anarquismo, assim como os anarquistas ditatoriais ou bolchevizantes rapidamente se tornaram diretos e direitos bolcheviques que foram colocados a serviço do governo russo e de seus delegados.

O fenômeno ocorreu na França, por ocasião das eleições dos últimos dias. O pretexto é anistia. “Há milhares de vítimas em cárceres e prisões, um governo esquerdista lhes concede anistia, é dever de todos os revolucionários, todos os homens de coração fazem o que podem para que os nomes dos homens políticos que devem anistiar saiam das urnas.” Essa é a tendência dominante no raciocínio dos convertidos.

Os colegas franceses devem estar alertas.

Na Itália, houve uma agitação em favor de Cipriani, prisioneiro, que serviu de pretexto para Andrea Costa arrastar os anarquistas de Roma para as urnas, e assim começar a degenerar o movimento revolucionário criado pela Primeira Internacional, e acabar reduzindo o socialismo a um meio de entreter as massas e garantir a tranquilidade da monarquia e da burguesia.

Mas, na realidade, os franceses não têm necessidade de procurar exemplos na Itália, porque os têm muito eloquentes em sua própria história. Na França, como em todos os países latinos, o socialismo começou a decolar, se não como o anarquismo, sim, pelo menos, como anti-parlamentar; e a literatura revolucionária francesa da primeira década depois que a Comuna abunda em páginas eloquentes, devida, entre outros, à pena de Guesde e Brousse, contra a mentira do sufrágio universal e da comédia eleitoral e parlamentar.

Assim, como Costa na Itália, o Guesde, o Massard, o Deville e mais tarde Brousse em pessoa, eram muito apanhados pela fome de poder e talvez também pelo desejo de reconciliar a reputação do revolucionário com a vida tranqüila e as pequenas e grandes vantagens que são conquistadas por quem entra na vida política oficial, mesmo que seja por meio de oposição. E então toda a manobra começou mudando a direção do movimento e fazendo os camaradas aceitarem as táticas eleitorais. A nota sentimental também desempenhou um papel importante na época: foi solicitada anistia para os homens da Comuna, foi necessário libertar o velho Blanqui que morreu na prisão, e com cem pretextos e cem recursos para superar o desgosto que eles mesmos, os viracasacas, contribuíram para o nascimento dos trabalhadores contra a eleição e que, além disso, foi nutrido pela memória ainda viva do plebiscito napoleónico e os massacres perpetrados em junho de 1848 e maio de 1871 por vontade dos deputados fora do sufrágio universal. Foi dito que era necessário votar para contar, mas que um votaria no inelegível, pelo condenado, pelas mulheres ou pelos mortos; outros propuseram votar em branco ou com um slogan revolucionário; outros queriam que os candidatos colocassem cartas de demissão nas mãos dos comitês eleitorais, caso fossem eleitos … E então, quando o fruto estava maduro, isto é, quando as pessoas se deixavam convencer a ir votar, queriam ser um candidato e um deputado em sério: os condenados foram deixados apodrecendo na cadeia, o antiparlamentarismo foi negado e o anarquismo foi atormentado; e Guesde, depois de cem palinodias, terminou como ministro do governo da “União Sagrada”, Deville se tornou embaixador da República burguesa e Massard, penso eu, algo ainda pior.

Não queremos questionar antecipadamente a boa fé dos novos convertidos, e ainda mais porque, entre eles, há mais de um com quem mantemos laços pessoais de amizade. Em geral, essas evoluções – ou involuções, se quiserem – têm seu começo de boa fé, então empurra a lógica, mistura amor-próprio, supera o meio no que se move … e se torna o que antes era repugnante. Talvez no caso atual não haja nada que tenhamos medo, porque os neoconversos são muito poucos, e a probabilidade de encontrarem grandes adesões no campo anarquista é muito fraca, e esses camaradas, ou ex-companheiros, refletirão melhor ou reconhecerão seu erro. O novo governo que será instalado na França depois do triunfo eleitoral do bloco de esquerda os ajudará a convencer-se de que há pouca diferença entre ele e o governo anterior, porque ele não fará nada de bom – nem mesmo a anistia – se a massa não o impuser por sua agitação. Tentamos, do nosso ponto de vista, ajudá-los a encontrar o motivo com uma observação de que, para o resto, não deve ser novo para aqueles que já aceitaram a tática anarquista.

É inútil virmos dizer, como fazem esses bons amigos, que um pouco de liberdade vale mais que uma tirania brutal sem limite e sem restrição; que um horário de trabalho razoável, um salário que permite que você viva um pouco melhor que os animais, a proteção de mulheres e crianças, são preferíveis à exploração do trabalho até a completa exaustão do trabalhador; que a escola pública, por mal que seja, é sempre melhor, do ponto de vista do desenvolvimento moral da criança, do que aquela dirigida por padres ou monges … Muito de acordo com isso; e podemos até aceitar que pode haver circunstâncias nas quais o resultado das eleições em um Estado ou em uma Prefeitura possa ter boas ou más consequências e que esse resultado possa ser determinado pelo voto dos anarquistas, se as forças dos jogos em competição fossem iguais.

Geralmente, é sobre uma ilusão; as eleições, quando são passivamente livres, não têm mais do que o valor de um símbolo: indicam o estado de opinião pública, uma opinião que seria melhor executada, com meios mais eficazes e com maiores resultados, se o truque que as eleições não lhe tivessem sido apresentado. Mas isso não importa: embora alguns pequenos progressos tenham sido a consequência direta de uma vitória eleitoral, os anarquistas não deveriam ir às urnas nem parar de pregar seu método de luta.

Desde que você não pode fazer tudo no mundo, você tem que escolher o seu próprio curso de ação.

Há sempre uma certa contradição entre pequenas melhorias, a satisfação de necessidades imediatas e a luta por uma sociedade verdadeiramente melhor do que existe.

Qualquer um que queira se dedicar à construção de mictórios ou fontes onde eles são necessários; Aqueles que querem sair de seu caminho para obter uma construção de rua, ou a instituição de uma escola municipal, ou qualquer outra lei de proteção trabalhista pequena, ou a remoção de um policial brutal, certamente, ele faz bem em usar sua cédula, prometendo seu voto para este ou aquele personagem poderoso. Mas, então, desde que você quer ser “prático”, você tem que ser completamente, e então, melhor esperar pelo triunfo do partido da oposição, é melhor votar no partido mais próximo, arrastar a ala para o partido dominante, servir o atual governo, tornar-se um agente do governador ou prefeito no cargo. E, de fato, o neoconverso de que falamos não pretendia votar no partido mais avançado, mas no partido com maior probabilidade de ser eleito: o bloco de esquerda.

Mas, então, onde isso vai parar?

Os anarquistas certamente cometeram mil erros, disseram centenas de coisas absurdas, mas eles sempre permaneceram puros e permanecem do lado revolucionário por excelência, a formação do futuro, porque eles souberam resistir à sirene eleitoral.

Seria verdadeiramente imperdoável ser levado pelo redemoinho quando nosso tempo estiver se aproximando rapidamente.

*Considerando o período eleitoral que se aproxima neste ano, nada mais pertinente do que recordar que tais ilusões eleitorais não são novas.

União Anarquista Federalista – UAF

Anarquismo e sindicalismo

Por Errico Malatesta

A questão que implica saber que posição devemos tomar em relação ao movimento sindical é certamente uma questão da maior importância para os anarquistas.

Malgrado longas discussões e diversas experiências, ainda não se chegou a um acordo completo sobre essa questão; a razão disso talvez esteja no fato de que essa questão não permite solução completa e permanente, graças às diferentes condições e às circunstâncias cambiantes da luta.

Penso, contudo, que nosso objetivo poderia sugerir-nos um critério de conduta aplicável às diversas contingências.

Desejamos a elevação moral e material de todos os homens; desejamos realizar uma revolução que dará a todo mundo a liberdade e o bem-estar, e estamos convictos de que isso não pode vir de cima, por leis e decretos, mas deve ser conquistado pela vontade consciente e pela ação direta daqueles que o desejam.

Necessitamos, portanto, mais do que todos os outros, da cooperação consciente e voluntária daqueles que, sofrendo mais pela presente organização social, têm o maior interesse na revolução.

Não nos basta – ainda que isso seja certamente útil e necessário – elaborar um ideal tão perfeito quanto possível, e formar grupos para a propaganda e a ação revolucionária.

Devemos converter ao nosso ideal a grande massa dos trabalhadores porque, sem ela, não podemos nem destruir a sociedade existente nem construir uma nova. E, visto que, para a grande massa dos proletários erga-se do estado de submissão no qual vegeta e chegue à concepção anarquista e ao desejo de realizá-la, é preciso uma evolução que não se opera unicamente sob a influência da propaganda; porquanto as lições que derivam dos fatos da vida cotidiana são muito mais eficazes do que todos os discursos doutrinários, devemos absolutamente tomar parte ativa na vida das massas, empregar todos os meios que as circunstâncias permitem-nos, para despertar gradualmente o espírito de revolta, e mostrar à massa, com a ajuda desses fatos, o caminho que conduz à emancipação.

É evidente que um dos melhores meios é o movimento sindical, e cometeríamos um grande erro se o negligenciássemos. Nesse movimento, encontramos grandes quantidades de operários que lutam pela melhoria de sua situação.

Esses operários podem enganar-se no que concerne ao objetivo que eles propõem-se a alcançar, e os meios que adotam para chegar a isso, e, em nossa opinião, eles enganam-se geralmente.

Todavia, esses operários, pelo menos, não se resignam mais à opressão e não a veem mais como justa; eles esperam e lutam. Nesses operários, podemos mais facilmente despertar esse sentimento de solidariedade em relação a seus camaradas explorados, e de ódio contra a exploração que conduzirá necessariamente à luta definitiva pela abolição da dominação do homem sobre o outro.

Podemos conduzir esses operários a reivindicar cada vez mais, e a reivindicar por meios cada vez mais enérgicos, e, desse modo, envolvemo-nos e envolvemos os outros na luta, extraindo benefícios das vitórias, a fim de exaltar a força da união e da ação direta, e beneficiando-se também dos reveses, que nos ensinam a necessidade de empregar meios mais enérgicos e soluções mais radicais.

Além disso, – e isso não é uma pequena vantagem – o movimento sindical pode preparar esses grupos de operários profissionais que, durante a revolução, poderão empreender a organização da produção e da troca, fora e contra todo poder governamental.

Mas com todas essas vantagens, o movimento sindical tem também seus defeitos e seus perigos, os quais devemos levar em conta quando examinamos a questão da posição que devemos tomar como anarquistas.

A experiência constante em todos os países mostra-nos que o movimento sindical, que começa sempre como um movimento de protestação e revolta, e que é animado no início por um grande espírito de progresso e fraternidade humana, tende bem rápido a degenerar. Quanto mais esse movimento torna-se forte, mais se torna egoísta, conservador, ocupado exclusivamente com interesses imediatos e restritos, e desenvolve em seu seio uma burocracia que, como sempre, não tem outro objetivo senão se fortalecer e crescer. É esse estado de coisas que induziu muitos camaradas a retirar-se do movimento sindical e, inclusive, combatê-lo como algo reacionário e nocivo. Mas disso resultou que nossa influência entre esses operários diminuiu, e o campo foi deixado livre àqueles que desejavam explorar o movimento num interesse pessoal ou de partido que nada tinha de comum com a causa da emancipação operária. Logo só eram encontradas organizações com um espírito estreito essencialmente conservador, das quais as trade-unions inglesas são o tipo, ou sindicatos que, sob a influência de políticos muito amiúde “socialistas”, eram simples máquinas eleitorais servindo para içar ao poder certos indivíduos.

Felizmente outros camaradas pensavam que o movimento sindical tinha sempre em si um princípio saudável e que, em vez de abandoná-lo aos políticos, seria melhor empreender a tarefa de trazer de volta essas organizações a seu objetivo primevo e extrair delas todas as vantagens que elas oferecem à causa anarquista. E esses camaradas conseguiram criar, especialmente na França, um novo movimento que, sob o título de “sindicalismo revolucionário”, busca organizar os operários, independentemente de toda influência burguesa e política, a fim de conquistar sua emancipação pela ação direta contra seus patrões.

Isso é evidentemente um grande passo à frente; mas não devemos exagerar sua importância e imaginar, como o fazem certos camaradas, que realizaremos a anarquia naturalmente pelo desenvolvimento progressivo do sindicalismo.

Cada instituição tem uma tendência a ampliar suas funções, perpetuar-se e tornar-se seu próprio objetivo. Não é surpreendente, portanto, que os iniciadores desse movimento, aqueles que nele desempenham o papel mais importante, tenham-se pouco a pouco habituado a ver o sindicalismo como o equivalente do anarquismo, ou, ao menos, como o meio supremo, substituindo todos os outros meios unicamente por ele, para realizar a anarquia. Mas isso torna ainda mais necessário evitar o perigo e bem definir nossa posição.

O sindicalismo, malgrado todas as declarações de seus mais ardentes partidários, contém em si, pela própria natureza de suas funções, todos os elementos de degenerescência que corromperam os movimentos operários no passado. Com efeito, sendo um movimento que propõe defender os interesses presentes dos operários, ele deve necessariamente adaptar-se às condições existentes e levar em consideração interesses que vêm em primeira linha na sociedade tal como ela existe hoje.

Agora, quando os interesses de uma seção de trabalho coincidem com os interesses de toda a classe operária, o sindicalismo é em si uma boa escola de solidariedade; quando os interesses dos operários de um país são idênticos aos interesses dos operários de outros países, o sindicalismo é um bom meio para desenvolver a fraternidade internacional; quando os interesses do momento não estão em contradição com os interesses do futuro, o sindicalismo é em si uma boa preparação para a revolução. Mas infelizmente isso nem sempre é assim.

A harmonia dos interesses, a solidariedade entre todos os homens é um ideal ao qual aspiramos, é o objetivo pelo qual lutamos, mas isso não é a condição atual, nem entre os homens da mesma classe, nem entre os homens de classes diferentes. A regra hoje é o antagonismo e a interdependência dos interesses ao mesmo tempo; a luta de cada um contra todos e de todos contra um. E não pode ser diferente numa sociedade na qual, em consequência do sistema capitalista de produção (isto é, uma produção fundada no monopólio de meios de produção e organização internacionalmente para o proveito de certos indivíduos) há, em geral, mais braços do que trabalho a fazer e mais bocas do que pão para enchê-las.

É impossível isolar-se seja como indivíduo, seja como classe ou como nação, visto que a condição de cada um depende mais ou menos diretamente das condições gerais de toda a humanidade. É impossível viver em um verdadeiro estado de paz porque é necessário defender-se e, inclusive, com frequência, atacar se não se quiser perecer.

O interesse de cada um é assegurar para si um emprego, e, como consequência, encontrar-se-á em antagonismo – isto é, em concorrência – com os sem trabalho do mesmo país e com os emigrantes dos outros países. Cada um deseja conservar ou obter o melhor contra os outros operários da mesma indústria. Cada um tem interesse em vender caro e comprar barato e, por consequência, como produtor, encontra-se em conflito com todos os consumidores e, quando ele é consumidor, encontra-se em conflito com todos os produtores.

União, entendimento, luta solidária contra o explorador, são coisas que não podem hoje ser obtidas senão por operários, animados pela concepção de um ideal superior, que aprenderam a sacrificar seus interesses exclusivos e pessoais aos interesses comuns, os interesses do momento aos interesses do futuro; e esse ideal de uma sociedade de solidariedade, justiça, fraternidade, não pode ser realizado senão pela destruição – desafiando toda legalidade – das instituições existentes.

Oferecer aos operários esse ideal; colocar os interesses largos do futuro antes dos interesses estreitos e imediatos; tornar possível a adaptação às condições presentes; trabalhar sempre para a propaganda e a ação que conduzirão e realizarão a revolução, eis os objetivos aos quais devem tender os anarquistas nos sindicatos e fora dos sindicatos.

O sindicalismo não pode fazer isso, ou só pode fazer muito pouco; ele deve contar com os interesses presentes, e esses interesses nem sempre são, infelizmente, aqueles da revolução. O sindicalismo não deve, ou não deve em demasia, exceder os limites da legalidade, e em dados momentos, deve tratar com os patrões e as autoridades. Ele deve ocupar-se dos interesses de certas seções de operários, não da massa dos sem trabalho e dos interesses da classe operária.

Se o sindicalismo não fizesse isso, ele não teria nenhuma razão particular de existir e perderia sua principal utilidade que é educar e habituar à luta as massas atrasadas.

E visto que os sindicatos devem permanecer abertos a todo mundo, a todos aqueles que desejem obter melhores condições de vida de seus patrões, então as opiniões dos sindicatos sobre a constituição geral da sociedade são de menor importância; eles são levados naturalmente a moderar suas aspirações; primo, para não apavorar os operários atrasados que eles querem atrair, e secundo, porque, à medida que o sindicato aumenta numericamente, as pessoas avançadas, os iniciadores do movimento perdem-se na maioria que se ocupa unicamente dos pequenos interesses do grupo.

Assim, pode-se ver desenvolver-se em todos os sindicatos que alcançaram certa posição influente a tendência a assegurar-se – em acordo mais com do que contra os patrões – uma situação privilegiada; criar dificuldades para a admissão de novos membros, para a admissão dos aprendizes nas fábricas; uma tendência em reunir fundos que eles temem depois comprometer; buscar o favor dos poderes públicos; absorver inteiramente na cooperação e em todas as espécies de mutualidade; tornar-se, ao final, um elemento conservador na sociedade.

Após tudo isso, parece-me claro que o movimento sindical não pode substituir o movimento anarquista, e pode servir como meio de educação e preparação revolucionária apenas se ele é colocado em movimento pela impulsão, pela ação e pela crítica anarquistas. Os anarquistas devem abster-se de identificar-se com o movimento sindicalista; eles não devem tomar por objetivo o que é apenas um dos meios de propaganda e ação. Devem permanecer no sindicato para dar uma impulsão à marcha para a frente e tentar fazer dos sindicatos, tanto quanto possível, instrumentos de combate com vistas à revolução social. Eles devem trabalhar para desenvolver nos sindicatos tudo o que pode aumentar sua influência educativa, sua combatividade, a propaganda das ideias, as greves, os espíritos do proselitismo, a desconfiança e o ódio das autoridades e dos políticos, a prática da solidariedade em relação a indivíduos e grupos em luta com os senhores do dia.

Os anarquistas nos sindicatos devem combater tudo o que tende a torná-los egoístas, pacíficos, conservadores – o orgulho profissional, o espírito de corpo, as fortes cotizações, a acumulação dos capitais investidos, os serviços de seguro, a confiança nas boas funções do governo, as relações amicais com os patrões, a nomeação dos empregados burocratas remunerados e permanentes. Nessas condições, a participação dos anarquistas no movimento sindical pode ter bons resultados, mas apenas nessas condições.

Essa tática pode algumas vezes parecer ou ser verdadeiramente nociva aos interesses imediatos de certos grupos, mas isso não tem qualquer importância, quando se trata da causa anarquista, isto é, do interesse geral e permanente da humanidade. Certamente desejamos, enquanto aguardamos a revolução, arrancar dos governos e dos patrões o máximo de liberdade e bem-estar possível, mas jamais comprometemos o futuro por alguma vantagem momentânea que, de resto, é muito amiúde ilusória ou obtida às expensas de outros operários. Preservemo-nos de nós próprios. O erro de ter abandonado o movimento operário causou muito mal à anarquia, mas, ao menos, deixou-a pura com seu caráter distintivo.

O erro de confundir o movimento anarquista com o sindicalismo será muito grave. Acontecerá conosco o que aconteceu com os social-democratas assim que entraram na luta parlamentar. Eles ganharam em força numérica, mas se tornaram dia após dia menos socialistas. Nós também nos tornaremos a cada dia mais numerosos, mas cessaremos de ser anarquistas.

Anarquia e Organização

Por Errico Malatesta*

Um opúsculo francês intitulado: “Plataforma de organização da União geral dos Anarquistas (Projeto)” caiu-me nas mãos por acaso. (Sabe-se que hoje os escritos não fascistas não circulam na Itália.)

É um projeto de organização anárquico, publicado sob o nome de um “Grupo de anarquistas russos no estrangeiro” e que parece mais especialmente dirigido aos camaradas russos. Mas trata de questões que interessam a todos os anarquistas e, além do mais, é evidente que procura a adesão dos camaradas de todos os países, inclusive pelo fato de ser escrito em francês. De qualquer forma, é útil examinar, pelos russos assim como por todos, se o projeto em questão está em harmonia com os princípios anarquistas e se sua realização serviria realmente à causa do anarquismo. Os objetivos dos promotores são excelentes. Eles lamentam que os anarquistas não tenham tido e não tenham, sobre os eventos da política social, influência proporcional ao valor teórico e prático de sua doutrina, assim como a seu número, à sua coragem, a seu espírito de sacrifício, e pensam que a primeira razão deste insucesso relativo é a falta de uma organização vasta, séria, efetiva.

Até aqui, em princípio, estou de acordo.

A organização outra coisa não é senão a prática da cooperação e da solidariedade, é a condição natural, necessária, da vida social, é um fato inelutável que se impõe a todos, tanto na sociedade humana em geral quanto em todo grupo de pessoas que tenha um objetivo comum a alcançar.

O homem não quer e não pode viver isolado, não pode sequer tornar-se verdadeiramente homem e satisfazer suas necessidades materiais e morais senão em sociedade e com a cooperação de seus semelhantes. É, portanto, fatal que todos aqueles que não se organizam livremente, seja por não poderem, seja por não sentirem a imperativa necessidade, tenham de suportar a organização estabelecida por outros indivíduos ordinariamente constituídos em classes ou grupos dirigentes, com o objetivo de explorar em sua própria vantagem o trabalho alheio.

A opressão milenar das massas por um pequeno número de privilegiados sempre foi a consequência da incapacidade da maioria dos indivíduos em se entender, em se organizar sobre a base da comunidade de interesses e de sentimentos com outros trabalhadores para produzir, para usufruir e para, eventualmente, defender-se dos exploradores e opressores. O anarquismo vem remediar este estado de coisas com seu princípio fundamental de livre organização, criada e mantida pela livre vontade dos associados sem nenhuma espécie de autoridade, isto é, sem que nenhum indivíduo tenha o direito de impor aos outros sua própria vontade. É natural, portanto, que os anarquistas procurem aplicar à sua vida privada e à vida de seu partido este mesmo princípio sobre o qual, segundo eles, deveria estar fundamentada toda a sociedade humana.

Certas polêmicas deixariam supor que há anarquistas refratários a toda organização; mas, na realidade, as numerosas, muito numerosas discussões que mantemos sobre esse assunto, mesmo quando são obscurecidas por questões de semântica ou envenenadas por questões pessoais, só concernem, no fundo, ao modo e não ao princípio de organização. Assim é que camaradas, os mais opostos, em palavras, à organização, organizam-se como os outros e amiúde melhor do que os outros, quando querem fazer algo com seriedade. A questão, eu repito, está toda na aplicação.

Eu deveria ver com simpatia a iniciativa destes camaradas russos, convicto como estou de que uma organização mais geral, melhor formada, mais constante do que aquelas que foram até aqui realizadas pelos anarquistas, mesmo que não conseguisse eliminar todos os erros, todas as insuficiências, talvez inevitáveis num movimento que, como o nosso, antecipa-se ao tempo e que, por isso, debate-se contra a incompreensão, a indiferença e frequentemente a hostilidade da grande maioria, seria pelo menos, com toda certeza, um importante elemento de força e de sucesso, um poderoso meio de fazer valer nossas ideias.

Creio ser necessário e urgente que os anarquistas se organizem, para influir sobre a marcha que as massas impõem em sua luta pelas melhorias e pela emancipação. Hoje, a maior força de transformação social é o movimento operário (movimento sindical) e de sua direção depende, em grande parte, o curso que tomarão os eventos e o objetivo a que chegará a próxima revolução. Por suas organizações, fundadas para a defesa de seus interesses, os trabalhadores adquirem a consciência da opressão sob a qual se curvam e do antagonismo que os separa de seus patrões, começam a aspirar a uma vida superior, habituam-se à vida coletiva e à solidariedade, e podem conseguir conquistar todas as melhorias compatíveis com o regime capitalista e estatista. Em seguida, é a revolução ou a reação.

Os anarquistas devem reconhecer a utilidade e a importância do movimento sindical, devem favorecer seu desenvolvimento e fazer dele uma das alavancas de sua ação, esforçando-se em fazer prosseguir a cooperação do sindicalismo e das outras forças do progresso numa revolução social que comporte a supressão das classes, a liberdade total, a igualdade, a paz e a solidariedade entre todos os seres humanos. Mas seria uma ilusão funesta acreditar, como muitos o fazem, que o movimento operário resultará por si mesmo, em virtude de sua própria natureza, em tal revolução. Bem ao contrário: em todos os movimentos fundados sobre interesses materiais e imediatos (e não pode estabelecer-se sobre outros fundamentos um vasto movimento operário), é preciso o fermento, o empurrão, a obra combinada dos homens de ideias que combatem e se sacrificam com vistas a um futuro ideal. Sem esta alavanca, todo movimento tende fatalmente a se adaptar às circunstâncias, engendra o espírito conservador, o temor pelas mudanças naqueles que conseguem obter melhores condições. Frequentemente, novas classes privilegiadas são criadas, esforçando-se por fazer tolerado, por consolidar o estado de coisas que desejaria abater.

Daí a urgente necessidade de organização propriamente anarquista que, tanto dentro como fora dos sindicatos, lutam pela realização integral do anarquismo e procuram esterilizar todos os germes da corrupção e da reação.

Todavia, é evidente que para alcançar seu objetivo as organizações anarquistas devem, em sua constituição e em seu funcionamento, estar em harmonia com os princípios da anarquia. É preciso, portanto, que não estejam em nada impregnadas de espírito autoritário, que saibam conciliar a livre ação dos indivíduos com a necessidade e o prazer da cooperação, que sirvam para desenvolver a consciência e a capacidade de iniciativa de seus membros e sejam um processo educativo no meio em que operam e uma preparação moral e material ao futuro desejado.

O projeto em questão responde a estas exigências? Creio que não. Acho que, ao invés de fazer nascer entre os anarquistas um desejo maior de se organizar, ele parece feito para confirmar o preconceito de muitos camaradas que pensam que se organizar é submeter-se a chefes, aderir a um organismo autoritário, centralizador, sufocando toda livre iniciativa. Com efeito, nesses estatutos, são precisamente expressas as proposições que alguns, contra a evidência e apesar de nossos protestos, obstinam-se em atribuir a todos os anarquistas qualificados de organizadores.

* * * *

Examinemos:

Inicialmente, parece-me que é uma ideia falsa (e em todo o caso irrealizável) reunir todos os anarquistas numa “União Geral”, isto é, assim como o precisa o Projeto, em uma única coletividade revolucionária ativa.

Nós, anarquistas, podemos nos dizer todos do mesmo partido se, pela palavra partido, compreende-se o conjunto de todos aqueles que estão de um mesmo lado, que possuem as mesmas aspirações gerais que, de uma ou de outra maneira, lutam com o mesmo objetivo contra adversários e inimigos comuns. Mas isto não quer dizer que seja possível – e talvez não seja desejável – reunirmo-nos todos em uma mesma associação determinada.

Os meios e as condições de luta diferem muito, os modos possíveis de ação que dividem a preferência de uns e dos outros são muito numerosos, e muito numerosas também as diferenças de temperamento e as incompatibilidades pessoais para que uma União Geral, realizada de modo sério, não se torne um obstáculo às atividades individuais, talvez mesmo uma causa das mais árduas lutas intestinas, ao invés de um meio para coordenar e totalizar os esforços de todos.

Como, por exemplo, poder-se-ia organizar, da mesma maneira e com o mesmo pessoal, uma associação pública para a propaganda e para a agitação no seio das massas e uma sociedade secreta, obrigada pelas condições políticas, onde opera, a esconder do inimigo seus objetivos, seus meios, seus agentes? Como a mesma tática poderia ser adotada pelos educacionistas persuadidos de que basta a propaganda e o exemplo de alguns para transformar gradualmente os indivíduos e, portanto, a sociedade, e os revolucionários convictos da necessidade de destruir pela violência um estado de coisas que só se sustenta pela violência, e criar, contra a violência dos opressores, as condições necessárias ao livre exercício da propaganda e à aplicação prática das conquistas particulares, e, entretanto, podem ser igualmente bons e úteis militantes do anarquismo?

Por outro lado, o autores do Projeto declaram inepta a ideia de criar uma organização que reúna os representantes das diversas tendências do anarquismo. Uma tal organização, dizem, “incorporando elementos teóricos e praticamente heterogêneos, outra coisa não seria senão um aglomerado mecânico de indivíduos que têm concepção diferente de todas as questões concernentes ao movimento anarquista; ela se desagregaria, com certeza, logo após ser colocada à prova dos fatos e da vida real”.

Muito bem. Mas então, se eles reconhecem a existência dos anarquistas e das outras tendências, deverão deixar-lhes o direito de se organizar, por sua vez, e trabalhar pela anarquia de modo que acreditarem ser o melhor. Ou eles têm a intenção de expulsar do anarquismo, excomungar todos aqueles que não aceitam seu programa? Eles dizem desejar reagrupar numa única organização todos os elementos sãos do movimento libertário, e, naturalmente, terão tendência a julgar sãos somente aqueles que pensam como eles. Mas o que farão com os elementos doentes?

Certamente há, entre aqueles que se dizem anarquistas, como em toda coletividade humana, elementos de diferentes valores e, pior ainda, há quem faça circular em nome do anarquismo ideias que só tem com ele duvidosas afinidades. Mas como evitar isso? A verdade anarquista não pode e não deve tornar-se monopólio de um indivíduo ou de um comitê. Ela não pode depender das decisões de maiorias reais ou fictícias. É necessário somente – e isso seria suficiente – que todos tenham e exerçam o mais amplo direito de livre crítica, e cada um possa sustentar suas próprias ideias e escolher seus próprios companheiros. Os fatos julgarão, em última instância, e darão razão a quem a tem.

* * * *

Abandonemos, portanto, a ideia de reunir todos os anarquistas em uma única organização; consideremos esta “União Geral” que nos propõem os russos com o que ela seria na realidade: a união de certo número de anarquistas, e vejamos se o modo de organização proposto está conforme aos princípios e métodos anarquistas, e se ele pode ajudar no triunfo do anarquismo. Mais uma vez, parece-me que não. Não ponho em dúvida o anarquismo sincero desses camaradas russos; eles querem realizar o comunismo anarquista e procuram a maneira de chegar a ele o mais rápido possível. Mas não basta desejar uma coisa, é preciso ainda empregar os meios oportunos para obtê-la, assim como para ir a um lugar é preciso tomar o caminho que a ele conduz, sob pena de chegar a outro lado. Ora, sendo a organização proposta inteiramente do tipo autoritário, não somente não facilitaria o triunfo do comunismo anarquista, mas ainda falsificaria o espírito anarquista e teria resultados contrários àqueles que seus organizadores esperam.

Com efeito, esta “União Geral” consistiria em tantas organizações parciais que haveria secretariados para dirigir ideologicamente a obra política e técnica, e haveria um Comitê Executivo da União encarregado de executar as decisões tomadas pela União, “dirigir a ideologia e a organização dos grupos em conformidade com a ideologia e com a linha de tática geral da União”.

Isso é anarquismo? É, na minha opinião, um governo e uma igreja. Faltam-lhe, é verdade, a polícia e as baionetas, assim como faltam os fiéis dispostos a aceitar a ideologia ditada de cima, mas isso significa apenas que esse governo seria um governo impotente e impossível, e que esta igreja seria fonte de cismas e heresias. O espírito, a tendência, permanecem autoritários, e o efeito educativo sempre seria antianarquista.

Escutai o que se segue: “O órgão executivo do movimento libertário geral – a União anarquista – adota o princípio da responsabilidade coletiva; toda a União será responsável pela atividade revolucionária e política de cada um de seus membros, e cada membro será responsável pela atividade revolucionária e política da União”.

Depois dessa negação absoluta de qualquer independência individual, de toda liberdade de iniciativa e de ação, os promotores, lembrando-se serem anarquistas, dizem-se federalistas, e gritam contra a centralização cujos resultados inevitáveis são, segundo dizem, a subjugação e a mecanização da vida social e da vida dos partidos.

Mas se a União é responsável do que faz cada um de seus membros, como deixar a cada membro em particular e aos diferentes grupos a liberdade de aplicar o programa comum do modo que eles julguem melhor? Como se pode ser responsável por um ato se não se possui a faculdade de impedi-lo? Consequentemente, a União, e por ela o Comitê Executivo, deveria vigiar a ação de todos os membros em particular, e prescrever-lhes o que devem ou não fazer, e como a condenação do fato consumado não atenua a responsabilidade formalmente aceita de antemão, ninguém poderia fazer o que quer que fosse antes de ter obtido a aprovação, a permissão do Comitê. E, por outro lado, pode um indivíduo aceitar a responsabilidade dos atos de uma coletividade antes de saber o que fará ela? Como pode impedi-la de fazer o que ele desaprova?

Além disso, os autores do Projeto dizem que a União quer e dispõe. Mas quando se diz vontade da União, entende-se vontade de todos os seus membros? Neste caso, para que a União possa agir seria preciso que todos os seus membros, em todas as questões, tenham sempre exatamente a mesma opinião. Ora, é natural que todos estejam de acordo quanto aos princípios gerais e fundamentais, sem o que não estariam unidos, mas não se pode supor que seres pensantes sejam todos e sempre da mesma opinião sobre o que convém fazer em todas as circunstâncias, e sobre a escolha das pessoas a quem confiar a tarefa de executar e dirigir.

Na realidade, assim como resulta do próprio texto do Projeto – por vontade da União só se pode entender a vontade da maioria, vontade expressada por Congressos que nomeiam e controlam o Comitê Executivo e decidem sobre todas as questões importantes. Os Congressos, naturalmente, seriam compostos por representantes eleitos por maioria em cada grupo aderente, e esses representantes decidiriam o que deveria ser feito, sempre pela maioria dos votos. Desta forma, na melhor hipótese, as decisões seriam tomadas por uma maioria da maioria, que poderia muito bem, particularmente quando as opiniões em oposição fossem mais de duas, não representar mais do que uma minoria.

Deve-se, com efeito, observar que, nas condições em que vivem e lutam os anarquistas, seus Congressos são ainda menos representativos do que os Parlamentos burgueses, e seu controle sobre os órgãos executivos, se estes possuem um poder autoritário, raramente se manifesta a tempo e de maneira eficaz. Aos Congressos anarquistas, na prática, vai quem quer e pode, quem tem ou consegue o dinheiro necessário e não é impedido por medidas policiais. Há, nesses Congressos, tantos daqueles que só representam eles mesmos, ou a pequeno número de amigos, quantos daqueles que representam, de fato, as opiniões e os desejos de uma coletividade numerosa. Salvo as precauções a serem tomadas contra os traidores e espiões, e também por causa dessas mesmas precauções necessárias, é impossível uma séria verificação dos mandatos e de seu valor.

De qualquer modo, estamos em pleno sistema majoritário, em pleno parlamentarismo.

Sabe-se que os anarquistas não admitem o governo da maioria (democracia), assim como também não admitem o governo de um pequeno número (aristocracia, oligarquia, ditadura de classe ou de partido), nem o de um único (autocracia, monarquia ou ditadura pessoal).

Os anarquistas fizeram mil vezes a crítica do governo dito de maioria, o que, na aplicação prática sempre conduz ao domínio de uma pequena minoria. Será preciso que eles a refaçam para o uso de nossos camaradas russos?

É verdade, os anarquistas reconhecem que, na vida em comum, é com frequência necessário que a minoria se conforme com a opinião da maioria. Quando há necessidade ou utilidade evidente de fazer uma coisa e, para fazê-la, é necessário o concurso de todos, a minoria deve sentir a necessidade de se adaptar à vontade da maioria. Por sinal, em geral, para viver juntos, em paz e sob um regime de igualdade, é necessário que todos estejam animados de espírito de concórdia, de tolerância, de flexibilidade. Todavia, esta adaptação, de parte dos associados à outra parte, deve ser recíproca, voluntária, derivar da consciência da necessidade e da vontade de cada um em não paralisar a vida social, por sua obstinação. Ela não deve ser imposta como princípio e como regra estatutária. É um ideal que, talvez, na prática da vida social geral, será difícil realizar de modo absoluto, mas é certo que todo agrupamento humano é tanto mais vizinho da anarquia quando a concordância entre a minoria e a maioria é mais livre, mais espontânea, imposta somente pela natureza das coisas.

Assim, se os anarquistas negam, à maioria, o direito de governar a sociedade humana geral, onde o indivíduo é, todavia, obrigado a aceitar certas restrições, visto que não pode isolar-se sem renunciar às condições da vida humana, se querem que tudo se faça pelo livre acordo entre todos, como é possível que adotem o governo da maioria em suas associações essencialmente livres e voluntárias e que comecem por declarar que se submetem às decisões da maioria, antes mesmo de saber quais elas serão?

Que a anarquia, a livre organização sem domínio da maioria sobre a minoria, e vice-versa, seja qualificada, por aqueles que não são anarquistas, de utopia irrealizável, ou somente realizável em um futuro longínquo, isto se compreende; mas é inconcebível que aqueles que professam ideias anarquistas e desejariam realizar a anarquia, ou, pelo menos, aproximar-se dela, seriamente, hoje, ao invés de amanhã, reneguem os princípios fundamentais do anarquismo na própria organização pela qual eles se propõem combater pelo seu triunfo.

* * * *

Uma organização anarquista deve, na minha opinião, ser estabelecida sobre bases diferentes daquelas que nos propõem esses camaradas russos. Plena autonomia, plena independência e, consequentemente, plena responsabilidade dos indivíduos e dos grupos; livre acordo entre aqueles que creem ser útil unir-se para cooperar em um trabalho comum, dever moral de manter os engajamentos assumidos e de nada fazer que esteja em contradição com o programa aceito. Sobre essas bases, adaptam-se as formas práticas, os instrumentos aptos a dar vida real à organização: grupos, federações de grupos, federações de federações, reuniões, congressos, comitês encarregados da correspondência ou de outras funções. Mas tudo isso deve ser feito livremente, de maneira a não entravar o pensamento e a iniciativa dos indivíduos, e somente para dar mais alcance a resultados que seriam impossíveis ou mais ou menos ineficazes se estivessem isolados.

Dessa maneira, os Congressos, em uma organização anarquista, ainda que sofrendo, enquanto corpos representativos, de todas as imperfeições que assinalei, estão isentos de todo autoritarismo porque não fazem a lei, não impõem aos outros suas próprias deliberações. Servem para manter e ampliar as relações pessoais entre os camaradas mais ativos, para resumir e provocar o estudo de programas sobre formas e meios de ação, mostrar a todos a situação das diversas regiões e a ação mais urgente em cada uma delas, para formular as diversas opiniões existentes entre os anarquistas e delas fazer um tipo de estatística. Suas decisões não são regras obrigatórias, mas sugestões, conselhos, proposições a submeter a todos os interessados; elas só se tornam obrigatórias e executivas para aqueles que as aceitam, e só até o ponto em que as aceitam. Os órgãos administrativos que eles nomeiam – Comissão de correspondência etc. – não têm nenhum poder de direção, só tomam iniciativas, não possuem nenhuma autoridade para impor seus próprios pontos de vista, que podem seguramente sustentar e propagar enquanto grupos de camaradas, mas que não podem apresentar como opinião oficial da organização. Publicam as resoluções dos Congressos, as opiniões e as proposições que grupos e indivíduos lhes comunicam; são úteis a quem quiser deles se servir para estabelecer relações mais fáceis entre os grupos e para a cooperação entre aqueles que estão em concordância em diversas iniciativas, mas todos livres para se corresponderem com quem bem entendam ou se servirem de outros comitês nomeados por agrupamentos especiais. Numa organização anarquista, cada membro pode professar todas as opiniões e empregar todas as táticas que não estejam em contradição com os princípios aceitos e não prejudiquem a atividade dos outros. Em todos os casos, determinada organização dura enquanto as razões de união forem mais fortes do que as razões de dissolução, e dê lugar a outros agrupamentos mais homogêneos. É certo que a duração, a permanência de uma organização é condição de sucesso na longa luta que devemos sustentar e, por outro lado, é natural que toda instituição aspire, por instinto, a durar indefinidamente. Todavia, a duração de uma organização libertária deve ser a consequência da afinidade espiritual de seus membros e das possibilidades de adaptação de sua constituição às mudanças das circunstâncias; quando já não é mais capaz de missão útil, é melhor que desapareça.

Esses camaradas russos acharão, talvez, que uma organização, tal como concebo, e tal como já foi realizada, mais ou menos bem, em diferentes épocas, é de pouca eficácia. Eu compreendo. Esses camaradas estão obcecadas pelo sucesso dos bolchevistas em seu país; eles desejariam, a exemplo destes, reunir os anarquistas em um tipo de exército disciplinado que, sob a direção ideológica e prática de alguns chefes, marchasse, compacto, ao assalto dos regimes atuais e que, obtida a vitória material, dirigisse a constituição da nova sociedade. E talvez seja verdade que, com este sistema, admitindo que anarquistas prestem-se a isso, e que os chefes sejam homens de gênio, nossa força material se tornaria maior. Mas que resultados? Não aconteceria com o anarquismo o que aconteceu, na Rússia, com o socialismo e com o comunismo? Esses camaradas estão impacientes com o sucesso, nós também, mas não se deve, para viver e vencer, renunciar às razões da vida e desnaturar o caráter da eventual vitória. Queremos combater e vencer, mas como anarquistas e pela anarquia.

*Recordaremos o nosso camarada Malatesta em alguns textos publicados nas próximas semanas.

A Hora é Agora: Uni-vos, Trabalhadores, pela Dignidade e pela Luta!

Chega de silêncio, chega de aceitar migalhas enquanto constroem a riqueza da nação com o suor do teu rosto! Olha ao teu redor: a precarização avança, os direitos são rasgados e a ganância patronal tenta calar a nossa voz. A imagem que você vê não é um instantâneo qualquer; é o retrato da nossa força coletiva, o símbolo de que a união é o nosso maior escudo. Enquanto estivermos divididos, seremos apenas peças descartáveis na engrenagem. Mas, juntos, somos a engrenagem que faz o mundo girar! Acorda, classe trabalhadora! O momento de reagir é este, antes que arranquem de nós o pouco que conquistamos com décadas de luta.

Não espere que a mudança caia do céu ou venha da boa vontade dos patrões. A história prova que cada direito conquistado – da jornada de 8 horas ao descanso semanal, das férias ao 13º salário – foi fruto da nossa pressão nas ruas, da nossa coragem em cruzar os braços e dizer: “Não passarão!”. A exploração só recua quando encontra pela frente a muralha da nossa organização. Seja no sindicato, na assembleia da fábrica ou na mobilização popular, o nosso lugar é na linha de frente, lutando por dignidade, por salário justo e por respeito. A passividade é o combustível da opressão; a rebeldia organizada é o motor da vitória.

Portanto, vista a camisa da luta, chame o companheiro de trabalho, o vizinho, o amigo! A batalha que se aproxima não é de um, é de todos nós. O ato que esta imagem representa precisa de você para se transformar numa avalanche que derrube os muros da injustiça. Apareça, participe, organize-se! Junte-se a nós no [local do evento] e faça valer a nossa força. Porque um trabalhador sozinho pode até ser ignorado, mas a classe trabalhadora unida é capaz de parar o mundo e construir um futuro onde a nossa dignidade não seja moeda de troca. A luta é agora e a vitória será nossa!

União Anarquista Federalista – UAF

Filiada à Internacional de Federações Anarquistas – IFA (https://i-f-a.org/)

Para Além da Exploração: Saúde, Liberdade e Ação Direta no Novo Ano

Camaradas, trabalhadoras e trabalhadores de todos os cantos,

Que 2026 encontre-nos com os punhos cerrados e o olhar voltado para o horizonte da libertação. A União Anarquista Federalista (UAF) saúda a chegada deste novo ano não como uma simples mudança de data, mas como mais uma trincheira no longo combate histórico contra todas as formas de dominação. Aos explorados pelo capital, oprimidos pelo Estado, marginalizados pelo patriarcado e pela hierarquia social, nosso chamado se renova: não há futuro a ser esperado, há um mundo a ser construído pelas nossas próprias mãos, a partir de baixo. Que este ano seja de organização crescente, de solidariedade ativa e de recusa intransigente.

O sistema que nos esmaga não descansa. Enquanto celebrarmos a passagem do tempo, os donos do poder contabilizam seus lucros extraídos do nosso suor e planejam novas formas de controle. A fome, a precariedade, a violência estatal e a destruição ambiental não são acidentes; são produtos diretos de uma máquina social que privilegia a propriedade sobre a vida e o autoritarismo sobre a liberdade. Em 2026, que nossa resposta seja a ampliação da ação direta, o fortalecimento dos núcleos de apoio mútuo e a construção de redes autônomas que possam sustentar nossas comunidades, tornando-nos cada vez menos dependentes das estruturas que nos oprimem.

Convidamos a todas e todos que carregam o fardo da exploração a se unirem a esta luta que não é de um partido ou de uma vanguarda, mas do povo organizado. A UAF, enquanto proposta de federação libertária, acredita na força da união voluntária, na democracia direta dos coletivos e no federalismo como caminho para uma sociedade verdadeiramente livre. Em seus bairros, locais de trabalho, escolas e campos, tomemos o ano que começa como oportunidade para semear a autonomia: criando assembleias populares, difundindo conhecimento livre, ocupando espaços e resistindo a cada golpe do capital e do Estado.

Que 2025 tenha terminado com nossas bandeiras negras e vermelhas hasteadas nas ruas, e que 2026 as veja fincadas em terrenos férteis de novas relações sociais. Não lutamos por um governo melhor, mas por um mundo onde os governos sejam desnecessários; não por migalhas, mas pelo pão inteiro e pela rosa de que falavam as companheiras. Avante, pois! Que a saudação anarquista – “saúde e liberdade!” – ecoe forte em nossos encontros. Que cada aperto de mão, cada decisão coletiva e cada ato de rebeldia em 2026 seja um passo firme rumo à sociedade futura, que já vivemos em embrião cada vez que nos organizamos sem chefes e sem senhores. Um ano de luta, de construção e de esperança combativa a todos os explorados!

União Anarquista Federalista – UAF

Por um mundo novo: apoie a participação da UAF no congresso anarquista

Olá companheiras e companheiros, amigos e amigas,

Para garantir a participação de um representante da União Anarquista Federalista (UAF) no Congresso 2026 da Internacional de Federações Anarquistas (IFA), produzimos estas camisas para divulgar a causa e arrecadar fundos para a viagem. O valor é de R$ 70,00 por camisa. Abaixo estão algumas estampas disponíveis.

A entrega para fora da Bahia e do Espírito Santo será feita pelos Correios, com frete pago pelo comprador.

Para as regiões Norte, Centro-Oeste e Nordeste, o Núcleo Sereno Anarquista ficará responsável pela comercialização e distribuição. Os pedidos devem ser feitos pelo e-mail aguaslivres@riseup.net.

Em Salvador, você pode retirar sua camisa na Maloca Libertária ou combinar um local de entrega.

No Espírito Santo, as camisas estarão disponíveis em Vitória e Cachoeiro de Itapemirim, também com a possibilidade de combinar ponto de entrega.

A distribuição no Sul e Sudeste será realizada pela Federação, através do e-mail fedca@riseup.net.

Apoie a causa, o trabalho e a luta por um mundo novo!

Está em nossas mãos a conquista da liberdade!

União Anarquista Federalista (UAF)

Solidariedade com o povo do Sudão desde Liubliana

Enquanto filiados à IFA, reproduzimos o comunicado abaixo e estendemos a nossa solidariedade ao povo sudanês.

Recebemos com tristeza a notícia da queda de Al-Fachar. Após os massacres e os deslocamentos, o horror não cessa no Sudão. A guerra entre diferentes forças armadas autoritárias pelo controle do território é um dos maiores conflitos militares ainda em curso no mundo. Este massacre causou mais de 150.000 vítimas, o deslocamento de mais de 10 milhões de pessoas e uma fome generalizada, violações, doenças… Para sobreviver, a população sudanesa tentou se organizar e criou comitês revolucionários.

Essas iniciativas foram reprimidas pelos militares com detenções, torturas e assassinatos de nossos companheiros. Compartilhamos com vocês o apelo de Ali Abdel Moneim, do grupo anarquista do Sudão: «Nós, os membros do Grupo Anarquista do Sudão, perdemos companheiros; alguns de nossos membros ficaram feridos e outros morreram; outros enfrentam o perigo iminente da guerra. Nossas famílias sofrem com fome, falta de remédios e falta de alimentos. Acreditamos no anarquismo em uma terra onde a autoridade domina tudo, e lutamos para defender a nós mesmos, nossa ideia e nossa unidade. Hoje precisamos de vocês: estendam a mão e nos apoiem para que possamos resistir às autoridades e aos janjaweed.»

Como anarquistas, os membros da IFA reunidos em Liubliana para uma CRIFA queremos expressar nosso apoio ao povo sudanês oprimido. Nossos pensamentos estão com os caídos que se defenderam. Esses companheiros lutaram para defender uma vida melhor e pagaram o preço. Esta guerra é como todas as outras, todas elas devem ser denunciadas e abandonadas. Como anarquistas, faremos tudo o que estiver ao nosso alcance para apoiar as vítimas dos conflitos e nos opor a esta situação. Nosso antimilitarismo e nosso ativismo contra a guerra superam fronteiras e mares.

“Que a revolução perdure, como uma adaga envenenada no coração dos tiranos”.

Comitê de Relações da Internacional de Federações Anarquistas,
Liubliana, 2 de novembro de 2025

Pela Solidariedade Internacional e Contra a Barbárie no Sudão

A guerra que assola o Sudão desde Abril de 2023 não é um conflito isolado ou um simples acerto de contas entre facções locais. É a expressão brutal e sanguinária da lógica perversa do Estado e do Capital. Enquanto a máquina de guerra, alimentada por interesses geopolíticos e pela ganância das indústrias de armamento, devora vidas, o povo sudanês é massacrado, deslocado à força e condenado à fome. A União Anarquista Federalista ergue a voz para denunciar veementemente esta carnificina, fruto podre de um sistema que coloca o poder e o lucro acima da dignidade humana. Esta guerra é a prova cabal de que o Estado, longe de ser um protetor, é o principal gestor da violência e da exploração.

A ingerência estrangeira no conflito, com o fornecimento de armas e treinamento por nações como os Emirados Árabes Unidos, Rússia, Egito e Itália, revela a natureza hipócrita e criminosa do capitalismo global. Estas potências, independentemente das suas bandeiras, são cúmplices na matança de milhares de civis e na criação de uma crise humanitária que já deslocou mais de 10 milhões de pessoas. O Estado, em sua versão local ou internacional, não busca a paz; ele mercantiliza a guerra, transformando o sofrimento do povo sudanês em moeda de troca para ampliar suas esferas de influência e acumular riquezas. A fome que atinge mais de meio milhão de pessoas não é um acidente, mas uma consequência direta desta economia de morte.

Contudo, mesmo perante esta cortina de fogo e aço, a centelha da resistência popular não se apagou. Inspiradora é a coragem dos Comitês Revolucionários e da Federação Anarquista Sudanesa (S.A.F.), que, organizados de baixo para cima, enfrentam não apenas as balas dos beligerantes, mas também a repressão, a tortura e o assassinato por ousarem lutar pela paz e pela liberdade. A sua luta é a nossa luta. A sua campanha internacional de solidariedade, que permite a fuga de camaradas e a continuidade da atividade militante, é um exemplo prático do mutualismo e do apoio direto que defendemos, em contraste total com a “ajuda” interesseira dos Estados.

Esta luta no Sudão ecoa a nossa própria batalha contra o militarismo aqui no território dominado pelo estado brasileiro. A estratégia federalista, que visa construir pontes de solidariedade entre os povos, para além das fronteiras impostas pelos Estados é fundamental, já que, enquanto os governos treinam e armam facções para dizimar populações, nós, anarquistas, construímos redes de apoio mútuo e de resistência popular.

Portanto, condenamos a guerra no Sudão e em todos os lugares como o mais grave dos crimes estatais e capitalistas. Afirmamos que a verdadeira solução não virá de novos governos ou de intervenções imperialistas, mas da auto-organização dos explorados, da ação direta e da solidariedade internacionalista. Aos camaradas sudaneses, nosso mais profundo apoio e compromisso. Aos opressores, nossa mais firme oposição. O futuro não pertence aos generais e capitalistas, mas aos povos que, livres da dominação do Estado e do jugo do capital, se organizam em federações de comunidades livres. Pela libertação social e pelo fim de todas as guerras!

União Anarquista Federalista

A Fome é uma Invenção do Capitalismo: Da Mentira da Escassez à Luta pela Soberania Alimentar

Reproduzimos o texto oriundo da conferência proferida no dia 03/10/2025:

A fome é sistematicamente apresentada como um problema técnico, resultado de uma suposta falta de comida, ou como uma tragédia natural decorrente de secas e guerras. Esta é a grande mentira que nos é contada. Na realidade, a fome não é uma falha do sistema capitalista; é uma de suas funcionalidades mais cruéis e brutais, a expressão máxima de uma lógica que coloca o lucro acima da vida.

A prova mais contundente dessa perversidade está no Brasil, um dos maiores produtores de alimentos do mundo. Na safra de 2022/2023, o país produziu mais de 300 milhões de toneladas de grãos. Se essa produção fosse simplesmente dividida pela população, cada brasileiro teria direito a mais de 4 kg de comida por dia. No entanto, em meio a essa abundância obscena, 33 milhões de pessoas passam fome e 70 milhões vivem em insegurança alimentar. Como é possível? A resposta é simples e direta: o sistema não produz para alimentar; produz para lucrar.

Esta é a lógica perversa do capitalismo: a comida não é um direito, é uma mercadoria. Seu valor primordial não está em nutrir pessoas, mas em gerar acumulação de capital. É mais lucrativo para uma grande corporação transformar milho em etanol ou ração para gado confinado do que garantir comida barata para a população. O desperdício deliberado — jogar leite fora ou deixar frutas apodrecerem — é uma estratégia de mercado para manter os preços altos. Quem comanda esse sistema são cerca de 50 corporações globais, como Cargill, Bayer e Nestlé, que controlam a produção, a distribuição e os preços dos alimentos. A comida está nas mãos de quem quer sugar lucro, não nutrir vidas.

No Brasil, a face mais visível dessa máquina de gerar fome é o agronegócio. Ele não produz comida; produz commodities para exportação. Enquanto ocupa 75% das terras cultiváveis, é a agricultura familiar, que usa apenas 23% da área, quem coloca a comida de verdade na mesa do brasileiro, responsável por 70% do feijão, 58% do leite e 38% do café. Ainda assim, o agronegócio recebe a esmagadora maioria dos subsídios e créditos governamentais. O sistema, portanto, financia quem exporta lucro, não quem alimenta o povo. E o faz através da expulsão de comunidades tradicionais, do envenenamento da terra com agrotóxicos e da destruição de biomas, consolidando-se como um projeto de morte.

O Estado, longe de ser um mediador neutro, atua como o gerente desse capital. O desmonte de políticas públicas é uma escolha política. O Brasil saiu do Mapa da Fome da ONU em 2014 graças a políticas robustas de apoio à agricultura familiar e distribuição de renda. Com o governo posterior, essas políticas foram desmontadas, e o país retornou ao Mapa da Fome em 2022. Isso não foi um acidente, mas a consequência direta de um Estado que serve ao capital e joga com a vida do povo conforme os interesses das classes dominantes. Programas bem-sucedidos como o PAA (Programa de Aquisição de Alimentos) e o PNAE, que direciona 30% da alimentação escolar para a agricultura familiar, mostram que soluções existem, mas são sempre os primeiros alvos quando o capital exige austeridade.

Diante desse cenário, não basta denunciar. É preciso construir as alternativas aqui e agora, sem depender do Estado ou das corporações. A Ação Direta se materializa nas ocupações de terra do MST e outros movimentos, que não são “invasões”, mas a recuperação de terras roubadas para um propósito social: produzir comida de verdade, sem veneno, de forma cooperada. O Apoio Mútuo se concretiza nas cooperativas de agricultura familiar, nas feiras livres, nas hortas comunitárias e nos circuitos curtos de produção e consumo. Um exemplo prático é a ASTRAF no Distrito Federal, que produz 40 toneladas de alimentos orgânicos por mês e abastece diretamente as escolas públicas. Isso é soberania alimentar na prática: o povo controlando o que produz e o que come.

Conclui-se, portanto, que a fome é uma arma política. É um instrumento para controlar, disciplinar e fragilizar a classe trabalhadora. Um povo com fome é mais fácil de manipular. O problema mundial nunca foi a falta de comida, e sim a concentração de renda, terra, poder e lucro — engrenagens do Estado e do Capital que fabricam a escassez. Nossa luta não é por migalhas ou “mais políticas públicas”. É por uma mudança radical: pela terra livre, pelas sementes crioulas, pela autogestão das comunidades e pelo fim do poder das corporações e do Estado. A fome é uma invenção do capitalismo. E a nossa tarefa histórica é inventar, com nossas próprias mãos, um mundo novo onde ela seja apenas uma lembrança ruim. Pela terra, pela liberdade e pelo fim de toda a dominação!

Liberto Herrera.

União Anarquista Federalista – UAF