Nasce o Livro Livre: Um Ponto de Resistência Anarquista no Sul do Espírito Santo

A cidade de Cachoeiro de Itapemirim, berço de uma cultura muitas vezes aprisionada pelas elites, ganha um sopro de liberdade e resistência. A União Anarquista Federalista (UAF), em parceria com a Federação Anarquista Capixaba (FACA), lança o projeto Livro Livre: um ponto físico de troca de livros baseado no mais puro princípio do apoio mútuo. Aqui, não há moeda, não há patrão, não há catraca. Deixe um livro, leve outro. É um ato simples, mas profundamente subversivo em um mundo que tenta mercantilizar cada aspecto de nossas vidas e conhecimentos.

Este espaço é mais do que uma estante; é um marco territorial da cultura libertária na cidade. É um convite para que a classe trabalhadora, os estudantes, os artistas e todos os inconformados ocupem esse pedaço da cidade com ideias que o sistema quer ver esquecidas. Ao colocar em circulação livros sobre anarquismo, anticapitalismo, feminismo, ecologia social e história vista de baixo, estamos construindo as trincheiras ideológicas da nossa luta. Cada livro retirado é uma semente plantada; cada livro doado é um tijolo no muro da resistência popular.

Funciona pela solidariedade e pela confiança, valores que o capitalismo tenta destruir diariamente. Se você tem livros pegando poeira em casa, traga-os para ganharem vida nova nas mãos de outros combatentes. Se você busca conhecimento para entender o mundo e transformá-lo, venha buscar. Não se trata de caridade, mas de responsabilidade coletiva com a formação da nossa classe. O projeto Livro Livre vive pela comunidade e para a comunidade, sendo um exercício prático de autogestão e horizontalidade, mostrando que podemos organizar nossa cultura e nossa educação sem esperar permissão do Estado ou dos empresários.

Por isso, conclamamos todos os moradores de Cachoeiro e região: venham conhecer, participem, doem, levem, divulguem. Apoiem essa iniciativa que aquece nossos corações e mentes para a batalha das ideias. O futuro que queremos construir, sem exploração e sem opressão, passa também por gestos como esse. O Livro Livre é nosso, é de quem o fizer. Ocupe a cultura, liberte-se! Viva a UAF! Viva a FACA! Pelo apoio mútuo e pela revolução social!

União Anarquista Federalista – https://uafbr.noblogs.org/

Federação Anarquista Capixaba – https://federacaocapixaba.noblogs.org/

English version:

The “Free Book” is Born: A Point of Anarchist Resistance in the South of Espírito Santo, Brazil.

The city of Cachoeiro de Itapemirim, birthplace of a culture often imprisoned by the elites, gains a breath of freedom and resistance. The Anarchist Federalist Union (UAF), in partnership with the Capixaba Anarchist Federation (FACA), launches the Free Book project: a physical book exchange point based on the purest principle of mutual aid. Here, there is no currency, no boss, no turnstile. Leave a book, take another. It is a simple act, but profoundly subversive in a world that tries to commodify every aspect of our lives and knowledge.

This space is more than a bookshelf; it is a territorial landmark of libertarian culture in the city. It is an invitation for the working class, students, artists, and all nonconformists to occupy this piece of the city with ideas that the system wants to see forgotten. By circulating books on anarchism, anti-capitalism, feminism, social ecology, and history from below, we are building the ideological trenches of our struggle. Each book taken is a seed planted; each book donated is a brick in the wall of popular resistance.

It operates on solidarity and trust, values that capitalism tries to destroy daily. If you have books gathering dust at home, bring them so they can gain new life in the hands of other fighters. If you seek knowledge to understand the world and transform it, come and get them. This is not about charity, but about collective responsibility for the education of our class. The Free Book project lives by the community and for the community, being a practical exercise in self-management and horizontality, showing that we can organize our culture and our education without waiting for permission from the State or businessmen.

Therefore, we call upon all residents of Cachoeiro and the region: come and see, participate, donate, take, spread the word. Support this initiative that warms our hearts and minds for the battle of ideas. The future we want to build, without exploitation and without oppression, also involves gestures like this. The Free Book is ours, it belongs to those who make it happen. Occupy culture, free yourself! Long live the UAF! Long live the FACA! For mutual aid and social revolution!

União Anarquista Federalista – https://uafbr.noblogs.org/

Federação Anarquista Capixaba – https://federacaocapixaba.noblogs.org/

A Fome é uma Invenção do Capitalismo: Da Mentira da Escassez à Luta pela Soberania Alimentar

Reproduzimos o texto oriundo da conferência proferida no dia 03/10/2025:

A fome é sistematicamente apresentada como um problema técnico, resultado de uma suposta falta de comida, ou como uma tragédia natural decorrente de secas e guerras. Esta é a grande mentira que nos é contada. Na realidade, a fome não é uma falha do sistema capitalista; é uma de suas funcionalidades mais cruéis e brutais, a expressão máxima de uma lógica que coloca o lucro acima da vida.

A prova mais contundente dessa perversidade está no Brasil, um dos maiores produtores de alimentos do mundo. Na safra de 2022/2023, o país produziu mais de 300 milhões de toneladas de grãos. Se essa produção fosse simplesmente dividida pela população, cada brasileiro teria direito a mais de 4 kg de comida por dia. No entanto, em meio a essa abundância obscena, 33 milhões de pessoas passam fome e 70 milhões vivem em insegurança alimentar. Como é possível? A resposta é simples e direta: o sistema não produz para alimentar; produz para lucrar.

Esta é a lógica perversa do capitalismo: a comida não é um direito, é uma mercadoria. Seu valor primordial não está em nutrir pessoas, mas em gerar acumulação de capital. É mais lucrativo para uma grande corporação transformar milho em etanol ou ração para gado confinado do que garantir comida barata para a população. O desperdício deliberado — jogar leite fora ou deixar frutas apodrecerem — é uma estratégia de mercado para manter os preços altos. Quem comanda esse sistema são cerca de 50 corporações globais, como Cargill, Bayer e Nestlé, que controlam a produção, a distribuição e os preços dos alimentos. A comida está nas mãos de quem quer sugar lucro, não nutrir vidas.

No Brasil, a face mais visível dessa máquina de gerar fome é o agronegócio. Ele não produz comida; produz commodities para exportação. Enquanto ocupa 75% das terras cultiváveis, é a agricultura familiar, que usa apenas 23% da área, quem coloca a comida de verdade na mesa do brasileiro, responsável por 70% do feijão, 58% do leite e 38% do café. Ainda assim, o agronegócio recebe a esmagadora maioria dos subsídios e créditos governamentais. O sistema, portanto, financia quem exporta lucro, não quem alimenta o povo. E o faz através da expulsão de comunidades tradicionais, do envenenamento da terra com agrotóxicos e da destruição de biomas, consolidando-se como um projeto de morte.

O Estado, longe de ser um mediador neutro, atua como o gerente desse capital. O desmonte de políticas públicas é uma escolha política. O Brasil saiu do Mapa da Fome da ONU em 2014 graças a políticas robustas de apoio à agricultura familiar e distribuição de renda. Com o governo posterior, essas políticas foram desmontadas, e o país retornou ao Mapa da Fome em 2022. Isso não foi um acidente, mas a consequência direta de um Estado que serve ao capital e joga com a vida do povo conforme os interesses das classes dominantes. Programas bem-sucedidos como o PAA (Programa de Aquisição de Alimentos) e o PNAE, que direciona 30% da alimentação escolar para a agricultura familiar, mostram que soluções existem, mas são sempre os primeiros alvos quando o capital exige austeridade.

Diante desse cenário, não basta denunciar. É preciso construir as alternativas aqui e agora, sem depender do Estado ou das corporações. A Ação Direta se materializa nas ocupações de terra do MST e outros movimentos, que não são “invasões”, mas a recuperação de terras roubadas para um propósito social: produzir comida de verdade, sem veneno, de forma cooperada. O Apoio Mútuo se concretiza nas cooperativas de agricultura familiar, nas feiras livres, nas hortas comunitárias e nos circuitos curtos de produção e consumo. Um exemplo prático é a ASTRAF no Distrito Federal, que produz 40 toneladas de alimentos orgânicos por mês e abastece diretamente as escolas públicas. Isso é soberania alimentar na prática: o povo controlando o que produz e o que come.

Conclui-se, portanto, que a fome é uma arma política. É um instrumento para controlar, disciplinar e fragilizar a classe trabalhadora. Um povo com fome é mais fácil de manipular. O problema mundial nunca foi a falta de comida, e sim a concentração de renda, terra, poder e lucro — engrenagens do Estado e do Capital que fabricam a escassez. Nossa luta não é por migalhas ou “mais políticas públicas”. É por uma mudança radical: pela terra livre, pelas sementes crioulas, pela autogestão das comunidades e pelo fim do poder das corporações e do Estado. A fome é uma invenção do capitalismo. E a nossa tarefa histórica é inventar, com nossas próprias mãos, um mundo novo onde ela seja apenas uma lembrança ruim. Pela terra, pela liberdade e pelo fim de toda a dominação!

Liberto Herrera.

União Anarquista Federalista – UAF

Conferências da UAF: Não é falta de comida, é excesso de Capitalismo: A invenção da Fome

A fome não é um acidente nem uma fatalidade. É um projeto político e econômico do capitalismo, que transforma o alimento – um direito básico – em uma mercadoria lucrativa. Enquanto o agronegócio ostenta recordes de produção e lucros bilionários, milhões são lançados à miséria extrema, vítimas de um sistema que prioriza a exportação e a acumulação de riqueza nas mãos de poucos. A fome é a violência mais visceral deste modelo de morte.

É urgente desmascarar essa engrenagem perversa e romper com a narrativa de que não há alternativa. Precisamos falar de soberania alimentar, de autogestão, de apoio mútuo e de como a organização popular direta pode construir um novo caminho, desde já, a partir da base, sem depender do Estado ou dos capitalistas.

União Anarquista Federalista (UAF) convoca todes para a conferência “A Fome é uma Invenção do Sistema Capitalista”, no dia 03 de Outubro de 2025, às 20h. Vamos juntar a fome com a vontade de lutar! Para garantir sua inscrição e receber o link de acesso, envie um e-mail para uaf@riseup.net. Não vamos apenas denunciar a fome; vamos organizar a sua abolição!

União Anarquista Federalista (UAF)

Capitalismo e o Colapso Ecológico Anunciado

Reproduzimos abaixo o posicionamento da Federação Anarquista Capixaba – FACA, associada à UAF:

Os dados alarmantes divulgados neste ano de 2025 pela Organização Meteorológica Mundial – o mar em superaquecimento, 1,4 milhão de deslocados por eventos climáticos extremos no Pacífico, 10% dos oceanos sufocados por ondas de calor – não são meros acidentes naturais. São o resultado palpável, o sintoma terminal, de uma máquina de morte chamada capitalismo. Este sistema, fundado na acumulação infinita de lucro, é intrinsecamente predatório. Ele transforma tudo – florestas, oceanos, a própria atmosfera – em mercadoria a ser explorada até o esgotamento. A lógica do crescimento perpétuo, indispensável ao capital, é biologicamente impossível num planeta finito. As emissões descontroladas, a extração insana de recursos, a poluição industrial desenfreada, são não falhas do sistema, mas seu modus operandi essencial. O recorde de temperatura do mar é o termômetro calibrado pela ganância corporativa.

A tragédia no Pacífico, com milhões forçados a abandonar suas terras por ciclones intensificados e elevação dos mares, expõe o rosto brutal do colonialismo ambiental inerente ao capitalismo globalizado. As nações insulares e comunidades costeiras, que menos contribuíram historicamente para as emissões de carbono, são as primeiras e mais violentamente atingidas. Enquanto isso, as megacorporações de combustíveis fósseis e os Estados industrializados, principais responsáveis pelo caos climático, continuam a lucrar obscenamente e a financiar novas explorações. O sistema protege seus agentes e transfere o custo humano e ecológico para os mais vulneráveis, os “descartáveis” do Sul Global. O deslocamento em massa não é um efeito colateral; é a externalização planejada do custo da acumulação capitalista.

A ilusão perigosa do “capitalismo verde” ou do “desenvolvimento sustentável” é apenas mais uma engrenagem na máquina de destruição. São falsas soluções de mercado – créditos de carbono, energias “limpas” controladas por monopólios, tecnologias mirabolantes – que servem para manter intactas as estruturas de poder e acumulação. Elas não questionam a necessidade fundamental de expansão infinita e consumo desenfreado; apenas tentam pintar de verde o mesmo modelo insustentável, criando novas fontes de lucro enquanto o planeta continua a arder. Os ciclones que devastam o Sudoeste da Ásia não serão contidos por painéis solares vendidos por megacorporações. Esta é uma cortina de fumaça para perpetuar o controle e adiar a ação radical necessária.

Diante dessa realidade, é uma insanidade acreditar que reformas dentro do sistema capitalista podem deter a catástrofe. A ação climática significativa exige o desmantelamento imediato da indústria de combustíveis fósseis, o fim da produção desnecessária de mercadorias, uma profunda redistribuição de riqueza e uma reorganização radical da vida em torno das necessidades comunitárias e ecológicas, não do lucro. O capitalismo, por sua própria natureza, é incapaz de realizar isso. Ele só compreende a linguagem do crescimento e da exploração. Portanto, a luta ecológica verdadeira é, inevitavelmente, uma luta revolucionária anticapitalista. Defender a Terra significa atacar as raízes do poder que a destrói: o Estado que a protege e o capital que a devora.

A única esperança reside na ação direta, na organização autônoma das comunidades, na desobediência massiva e na construção de alternativas horizontais e libertárias agora. Devemos sabotar as máquinas da destruição – dos gasodutos às mineradoras – e criar zonas de resistência e autonomia onde a vida, não o lucro, seja o valor supremo.

A destruição do capitalismo não é um desejo vingativo; é uma necessidade ecológica absoluta, o pré-requisito para qualquer chance de sobrevivência coletiva neste planeta. Os 1,4 milhões de deslocados no Pacífico são as vítimas de hoje. Se não destruirmos a máquina que os esmaga, seremos todos as vítimas de amanhã. A Terra não negocia; ela se rebela. Ou nos rebelamos com ela, abolindo o capitalismo, ou perecemos com ele.

Federação Anarquista Capixaba – FACA

Sangue nos Campos, Ouro nos Bancos: A Guerra como Negócio do Capital

Abaixo, reproduzimos o texto de nosso camarada Liberto Herrera.

Enquanto a Ucrânia explode pilares submersos da ponte da Crimeia com 1.100 kg de TNT e a Rússia responde com foguetes em Sumy, matando civis, o verdadeiro motor dessa carnificina não está nos discursos de Zelensky ou Putin, mas nos balanços trimestrais das petroleiras e no complexo industrial-militar. Desde o início da guerra, empresas como a BP lucraram US$ 15,8 bilhões — 158 vezes mais do que investiram em mitigação climática. Os Estados, longe de serem meros atores políticos, são sócios dessas corporações: a Rússia exige “cessar-fogo” apenas para consolidar ganhos territoriais, enquanto a OTAN vende “solidariedade” a Kiev em forma de contratos bilionários de armas. Não sejamos tolos: a guerra não é um conflito entre nações, mas um leasing de sangue assinado por elites.

A ponte da Crimeia, atacada pela terceira vez, é um símbolo perfeito dessa engrenagem. Construída por US$ 3,7 bilhões sob ordens de Putin, sua destruição não fere o Kremlin — que já a reconstruiu duas vezes —, mas alimenta a indústria de “reparos de guerra”, controlada por oligarcas russos e empreiteiras europeias. Cada explosão é um estímulo à economia bélica: os mesmos Estados que condenam a invasão lucram com o gás russo vendido a preços inflacionados e com os drones ucranianos de R$ 3 mil que causam prejuízos de US$ 7 bilhões à Rússia. A contradição é óbvia: o capitalismo não tem pátria, só acionistas.

O memorando russo para cessar-fogo, recentemente divulgado, é uma farsa que revela o jogo. Moscou exige a “neutralidade” da Ucrânia — isto é, sua submissão a um status quo que garanta o fluxo de recursos para as multinacionais. Enquanto isso, a BP anuncia “voluntariado climático” após lucrar com a crise energética, como se fossem filantropos, não pirómanos. Os Estados, sejam “agressores” ou “libertadores”, operam como gerentes desses interesses, na medida em que a guerra é terceirizada aos pobres (ucranianos, russos, africanos famintos por trigo bloqueado), enquanto os dividendos são privatizados.

Recordamos que a posição anarquista não está em escolher um lado nesse jogo de xadrez sangrento, mas em sabotar o tabuleiro! Quando o drone ucraniano mina pilares de concreto, mostra mais eficácia que a ONU — mas ainda age como braço de um Estado capitalista. A verdadeira resistência seria a greve geral dos trabalhadores das petroleiras, o bloqueio aos portos que exportam armas, a recusa coletiva em pagar impostos que financiam tanques, entre tantas outras possibilidades que as conjunturas apresentam. Histórias como a Comuna de Paris ou os conselhos operários na Ucrânia de 1917 lembram que só a ação direta desarma os senhores da guerra.

Enquanto a esquerda institucional pede “paz negociada”, nós, anarquistas, advertimos: toda negociação entre Estados é um acerto de contas entre criminosos. A paz real virá quando os de baixo deixarem de ser carne de canhão e virarem o canhão contra os palácios. Que a próxima explosão seja das bolsas de valores.

Liberto Herrera.

A Síntese Anarquista

A Síntese Anarquista
Boris Volin

Fruto da dedicação, trabalho editorial e de tradução do editor Plínio Augusto Coelho, reapresentamos o texto: A Síntese Anarquista do russo Boris Volin (pseudonimo de Vsevolod Mihajlovič Eichenbaum). Publicado originalmente na obra: Apelo à unidade do movimento libertário; editada pela Editora Imaginário em parceria com o NU-Sol e IEL-2003.

Reunidos em 1918 na Ucrânia, anarquistas ucranianos e russos realizaram conferências pela unificação do movimento anarquista. O que ficou inconcluso com a guerra dos bolcheviques para tomar o controle deste país e aniquilar os revolucionários ucranianos. Este é um dos textos de referência da nossa UAF. Um texto que contribuiu para a organização do Movimento Anarquista e dará origem a várias Federações: Federação Anarquista no México, Federação Anarquista Ibérica, Federação Anarquista Kurdistão e depois a Internacional Federações Anarquistas , qual soma hoje 14 federações associadas em três continentes.

Clique no título e baixe o texto: A Síntese Anarquista