Transbordar a Solidariedade, Materializar a Anarquia

Compartilhamos o texto do camarada Liberto Herrera. Que viva a solidariedade!

Ergamos bem alto a bandeira negra do apoio mútuo, esse fator de evolução que Kropotkin desenterrou das entranhas da vida para demolir a mentira da competição como destino.

O anarquismo não é uma doutrina empoeirada à espera do grande terremoto redentor: é uma ética insurreta que se prova no calor de cada gesto, no aqui-agora das relações. Transbordar o apoio mútuo para o cotidiano é arrancar o anarquismo dos livros e das declarações solenes e fazê-lo pulsar na rua, na cozinha coletiva, na oficina compartilhada, no cuidado com a vizinhança. É declarar, sem pedir licença, que a solidariedade não é caridade — é luta, é tecido conjuntivo de uma humanidade que se recusa a ser lobo de si mesma.

Romper as amarras do individualismo canibal que o capital nos enfia goela abaixo exige que cada relação seja minada pela lógica da horizontalidade radical. No trabalho, quebremos a hierarquia gerencial com autogestão real: decisões em assembleia, rotação de tarefas, renda partilhada. Na casa, desintegremos o patriarcado com a socialização do cuidado — creches autogeridas, marmitas comunitárias, mutirões de reparos que não distinguem gênero. Na rua, disputemos cada metro quadrado com hortas rebeldes, bibliotecas livres, saraus de ocupação. Tudo isso é apoio mútuo em ato, é a pré-figuração da sociedade sem Estado que começa a ser construída agora, nas brechas, sem esperar a licença de nenhum comitê central ou a promessa de um amanhã que nunca vem.

Transformar relações é o coração da contracultura anarquista, pois o poder se esgueira pelos vínculos que reproduzem submissão, machismo, racismo, transfobia. O apoio mútuo, quando vivido com intencionalidade revolucionária, desata esses nós. Uma escuta atenta num coletivo que acolhe a fala de uma pessoa trans sem interrompê-la, uma rede de economia solidária que prioriza produtoras negras, um sarau onde a palavra da quebrada ecoa mais alto que a do acadêmico — isso não é detalhe, é programa. A amizade como aliança política, o amor livre como força antiautoritária, o prazer compartilhado como sabotagem ao produtivismo. Cada vínculo refeito nessa base é uma fagulha de utopia queimando a velha ordem na esfera mais íntima do cotidiano.

Materializar utopias não é delírio de quem ignora a dureza da realidade; é a teimosia lúcida de quem sabe que a sociedade futura não cairá pronta do céu. Ela se ensaia, se erra e se corrige nas ocupações de imóveis vazios, nas cozinhas solidárias que enfrentam a fome enquanto o Estado desvia verba, nos bancos comunitários que subvertem a finança predatória, nas brigadas de defesa territorial contra a milícia e a polícia. O apoio mútuo é a argamassa que une esses pedaços de mundo novo — é ele que transforma um galpão abandonado num centro social autogerido, uma praça esquecida num jardim de ervas medicinais livres, um grupo de pessoas precarizadas numa cooperativa de resistência. Utopia concreta se faz com as mãos enlameadas de presente, não com a testa franzida de quem só repete versículos.

Fazer o anarquismo vivo é declarar guerra ao dogmatismo que mumifica a revolta e a transforma em seita. Não existe “O” anarquismo: existem anarquismos, tantos quantas forem as constelações de apoio mútuo que se armam contra a tristeza capitalista. A ação direta que supre um telhado sem pedir autorização à prefeitura, a rede de apoio a pessoas em situação de rua que opera na margem da lei, a cadeia de solidariedade que se forma em minutos num desastre enquanto o governo só envia repressão — são manifestações dessa anarquia viva, que não é desordem, mas ordem voluntária e insurgente. Contra a frieza burocrática das esquerdas estatólatras, a ternura combativa de quem cuida das feridas da companheirada enquanto destrói as cercas do mundo.

Portanto, que cada manhã seja uma assembleia cotidiana onde decidimos, na prática, viver como se a anarquia já fosse realidade. Não peça, faça; não delegue, organize-se; não espere, estenda a mão. O apoio mútuo não é adereço poético de um manifesto, é a respiração de um corpo coletivo que aprende a andar com as próprias pernas, sem patrão, sem Estado, sem deus. Companheirxs, a revolução não está marcada no calendário — ela brota no instante em que você oferece o que sabe, partilha o que tem e cuida de quem está ao lado. Sejamos a anarquia que nos habita: viva, insubmissa, solidária. Nem deus, nem patrão, nem estado: vida. E vida em abundância, transbordada, tecida nos fios quentes do apoio mútuo.

Liberto Herrera

Fonte: https://libertoherrera.noblogs.org/2026/06/22/transbordar-a-solidariedade-materializar-a-anarquia/

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *